Tens a certeza que vives num mundo real, ou será que estás apenas a sonhar? Afinal, enquanto um sonho dura, parece bem real. Parece? Enquanto estamos a sonhar, o sonho é real, quando acordamos é que se desvanece.
A ideia de que o nosso mundo pode não ser mais do que uma ilusão é capaz de levar alguém à loucura e até ao suicídio. A morte pode ser vista como a única saída para um nível superior de existência, mas quem se arrisca a descobrir o que está do outro lado?
Inception (ou A Origem) aborda os sonhos, vários níveis de realidade, o subconsciente, o amor, a vida e a morte. Tudo isto à volta de um thriller de acção, cheio de perseguições, tiroteios e explosões.
Já quase toda a gente viu o filme, mas se ainda não viste, fica o aviso – este texto contém spoilers!
Em primeiro lugar convém dizer que gostei do filme. Foi dinheiro bem gasto e tempo bem passado. Considerando que o cinema não está barato e que são 148 minutos de filme, isso já é dizer bastante.
“The most resilient parasite is an idea planted in the unconscious mind.”Como produto de entretenimento, Inception é muito bom. Visualmente é arrebatador, o enredo prende-nos até ao final e os actores são reconhecidamente competentes. Inception já é o blockbuster do ano e isso é excelente para os seus criadores. Aliás, é para isso mesmo que se investem muitos milhões de dólares neste tipo de filmes. Espero que tenha servido para provar que ainda é possível criar imagens de cortar a respiração sem recorrer ao 3D, que sinceramente, já enjoa um bocado.
Apesar disso, eu esperava algo mais. Inception não levanta questões de fundo que não tenham sido já exploradas em filmes anteriores, como Matrix ou Vanilla Sky. A forma simplista como as trata também não abona a seu favor. E os diálogos deixam muito a desejar. Basta pesquisar “Inception quotes” no Google para perceber a pobreza das citações retiradas do filme.
Mas aquilo que me desiludiu mais em Inception, é que tinha tudo para ir ainda mais longe e não foi.

Don’t be afraid to dream a little bigger, darling. É isto que apetece dizer a Christopher Nolan no final do filme. Depois de vermos o que Ariadne é capaz de fazer no seu primeiro sonho, ficamos a salivar para descobrir o que ela vai fazer a seguir!
Mas as fantasias loucas da arquitecta ficam por aí. Até ao final do filme, a única distorção da “realidade” que vamos ver são umas escadas defeituosas. É muito pouco para alguém capaz de descer até às profundezas da consciência humana só para matar a sede da criação sem limites.
Depois temos Cobbs, que devia ser um arquitecto genial, mas por receito ser traído pelo seu subconsciente, já não desenha. E ainda o seu mestre, que é bem capaz de ser o maior arquitecto do mundo, mas não sabemos nada sobre ele nem a sua obra. Sou só eu que gostava de ver mais?
Tudo explicadinho
Ao contrário do que é habitual neste tipo de filmes, Inception não confunde muito o espectador. As regras são explicadas muito claramente logo na fase inicial e toda a história obedece fielmente ao que foi definido. Parece que Nolan adoptou a técnica comum em videojogos, onde o primeiro nível é na verdade um tutorial em que aprendemos enquanto jogamos.
O problema é que, enquanto as personagem nos explicam tudo o que está a acontecer, não deixam quase nada para a nossa própria imaginação preencher. E tornam-se demasiado superficiais, meros guias que nos levam pela mão através dos vários níveis do jogo.
O exemplo da escada paradoxal é quase um insulto à nossa inteligência. Mesmo depois de nos explicarem com antecedência o conceito da escada de Penrose e a possibilidade de a usar nos sonhos, o personagem sente a necessidade de o verbalizar novamente no meio da acção (paradoxo, diz ele), não vá o espectador estar distraído.
A única dúvida surge no final do filme, mas até isso é previsível e teria uma resposta fácil se nos dessem mais uns segundos antes de entrar o genérico.
O subconsciente
O subconsciente humano tem um lugar de destaque no filme. Essencialmente, todos os vilões são produtos do subconsciente de algum personagem e agem fora do seu controlo.
Mal é o expoente máximo do poder do subconsciente, sabotando constantemente as intenções do seu criador. A verdade é que se o nosso subconsciente pudesse materializar-se e agir por conta própria, não ia ser bonito!
Não deixa de ser curioso que a personagem que mais me tocou e que transmite mais emoções em todo o filme é apenas uma projecção de alguém que já morreu.
O que não faz tanto sentido é que os outros personagens, com o estilo de vida que levam, não tenham os seus próprios fantasmas a assombrar cada sonho.
As falhas de Inception
Apesar de definir as regras cuidadosamente e nunca fugir delas, há momentos do filme que desafiam qualquer lógica.
As cenas de acção em gravidade zero são das mais memoráveis do filme, no entanto não fazem qualquer sentido. Porque é que num mundo de sonhos, onde o sonhador pode até virar uma cidade inteira do avesso com os carros colados ao tecto (aí não se aplicam as leis), a gravidade deixa de existir pelo simples facto de estar em queda livre no mundo real? É um sonho, nada existe fora das mentes dos sonhadores e devia ser possível controlar todas as propriedades físicas, incluindo a força da gravidade. Como alguém uma vez disse, “there is no spoon“.
Outra falha incompreensível é ignorância da equipa em relação às adversidades que iam encontrar durante a missão. Primeiro levam-nos a acreditar que estes são os maiores peritos do mundo numa ciência ultra-avançada e depois impingem-nos um erro que nem um principiante faria. Esqueceram-se de investigar se o alvo estava protegido contra o ataque que planearam? Por favor… A piada deste tipo de enredo é ver um plano complexo a desenrolar-se, e este falha logo no passo mais básico, por desleixo. É um twist muito forçado.
Podia continuar a analisar todos os pormenores, mas Inception é uma experiência muito mais agradável se não pensarmos demais naquilo que estamos a ver.
A conclusão é que Inception merece ser apreciado no cinema, mas não é um filme de culto. Não tem o impacto que Matrix teve. Não vai ser um ícone cultural e não vale a pena revê-lo vezes sem conta até sabermos as falas de cor.
Sei que muita gente adorou o filme e que há teorias diferentes sobre o seu verdadeiro significado, portanto não se poupem nos comentários!

